Onde Sullivan se esqueceu de Emerson
Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus. – (Mateus 22:21)
Embora tenha sido o ensaio Natureza que perpetuou a celebrização de Emerson, é no Confiança em Si que vemos, com mais clareza, onde os seus subsequentes deixaram de espelhar Emerson.
Apontando, no caso de Sullivan, é na transferência do Ser para uma supra-entidade que se instala a incongruência para com o pensamento de Emerson.
Explicando, Emerson formula a sua tese no pressuposto que cada indivíduo é um universo auto-contido, capaz de se expandir em si próprio. Defende, também, que qualquer ortodoxia, sem a ponderação cuidada no Eu, ou seja, qualquer assimilação mecanizada de um conhecimento, sem filtro ou triagem interior, é um afastamento de Si. Logo, o entendimento teísta deve ser formulado individualmente, longe da tradição e do hábito, de uma forma abnegada, e, portanto, a transferência da nossa responsabilidade para uma entidade extra-pessoal não nos serviria à virtude.
Mesmo quando Emerson fervilha a criar supra-entidades, como a Natureza, fá-lo contemplando, elevando-se e não se deixando esmagar. Isto é, mesmo o que no homem é apenas alcançável pela intuição ou devir (como a percepção de Deus), não deve ser plantando interiormente como algo dogmático, seja por aprovação ou reprovação. Daí ser muito pouco credível que possamos falar pela vez dessas entidades e que, segundo Emerson, essas epifanias são manifestações da vontade.
No entanto, Emerson não descredibiliza a vontade, bem pelo contrário: a vontade é um motor grandioso do Homem e cada indivíduo deve confiar na sua.
Isto para notarmos que Sullivan faz o percurso inverso: o que seria a sua vontade, a sua epifania, no contexto do pensamento de Emerson, era uma manifestação da Natureza e não de si; ele apenas a viu, claro como água.
O perigo da atribuição da causa do que é nosso a algo supremo é colocar-nos na posição de Escolhido para a Revelação. Se assim é, se me foi atribuída uma revelação suprema, de uma entidade perfeita e inequívoca, o que recebo é aquilo-que-É, ou seja, um caminho único, tão perfeito e inequívoco como a entidade que a criou. Mas, se Emerson nos conduz até mostrar que a epifania é uma manifestação da vontade, seremos nós – ou a nossa vontade – perfeitos e inequívocos?
A questão nem se trata de diagnosticar a qualidade da nossa existência: o que me parece, por aqui, é que se trata de um problema de credibilidade. É muito mais simples aprovarmos socialmente as nossas ideias, se estas provirem de alguma fonte intocável, magnânima e inequívoca, do que assumi-la como manifestação da nossa vontade.
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