Da Forma e da Função

A Ideia (ou Forma) Platónica

Publicado em História do Pensamento por lulaassassina, em Fevereiro 4, 2010

A ideia de um motivo, propósito ou origem anterior ao morforma não é uma invenção da (pré-)modernidade. Se encararmos o mote a forma segue a função numa perspectiva teosófica, a proposição aristotélica, de que as coisas servem a um propósito, facilmente nos remete à Teoria das Formas (ou das Ideias) de Platão.

Este último interessa-nos como referencial no tempo e no pensamento, pois o seu periférico – quer como convergência de ideias, como ponto de partida – é determinante para a compreensão dos vectores de pensamento apontados por Platão.

Retomando, Platão formula a Teoria das Formas e Aristóteles concorda, embora com pressupostos vincadamente divergentes. A teoria é simples: existem as Formas – supraentidades de formas (ou ideias, já que εἶδος, o termo que Platão usa, tanto se traduz como aparência ou como ideia) não-materiais e abstractas, num seu mundo próprio, inalteráveis e imortais, que nunca nos surgem manifestadas; reside, neste mundo das Formas, a verdade e esta é inteligível, enquanto que o mundo sensível, ou o dos objectos que conhecemos através das sensações, é apenas uma imitação da ideia ulterior de Forma, portanto, uma ilusão.

Objectizando, segundo Platão, se um artesão de mobília fabrica uma cadeira, imita a Forma de Cadeiridade; se um artista pintar um quadro de uma cadeira, assim imita uma imitação. Então, na perspectiva platónica, como a arte é duplamente afastada da realidade (ou verdade, i.e. Formas), não poderá ser boa para o conhecimento.

Vale a pena notar alguns aspectos que circundam Platão: as suas ideias eram aristocráticas, provavelmente com o descrédito que veria na democracia – que julgou o seu mestre e que se deixara dizimar por Esparta. É possível, também, como podemos ver na homenagem de Plutarco (discípulo da Academia de Atenas, fundada por Platão) a Licurgo (lendário estadista espartano), que o regime de aristocracia latifundiária/minarquia de Esparta tivesse seduzido Platão. A Utopia de Platão tem, em muito, presente conceitos da organização social e de poder político da Esparta de Licurgo, desde o condicionamento do indivíduo à função social que desempenha, até ao infanticídio dos impróprios à sociedade.

O outro apontamento necessário é o facto de, como discípulo de Sócrates, Platão carregar o purismo orfeico dos pitagorianos, do alcançar da virtude e do bem.

Anterior a estes, Anaximandro de Mileto, um pré-socrático, discípulo de Tales de Mileto, apresentava já uma tentativa de codificação – embora altamente vaga pela dificuldade do tema – de um supra-divino, quase monoteísta, que nos chega com o Sócrates de Platão. A este início de tudo, Anaximandro de Mileto, chama de ápeiron (άπειρον), algo que é infinito, tanto quantitativa (no exterior e no espaço) como qualitativamente (no interior), insurgido e imortal.

Nas concepções religiosas do helenismo clássico, até os próprios deuses estariam subservientes do Destino, a algo ulterior à sua divinidade, como meio de punir a sua irresponsabilidade ou de lhes ensinar a tragédia. Posto isto, o que Anaximandro de Mileto pretendia codificar seria o ultra-divino, para lá do Deuses, enquanto que Platão, com isto, pretendia abolir as lendas de má-conduta destes, pois os humanos, como estariam na mesma condição de subserviência ao Destino, poderiam identificar-se com os episódios dos Deuses, perdendo-se em deleite da ilusão do sensível.

Como já vimos, a posição de Platão é desfavorável à Arte, quer pela dupla ilusão que produz, quer pelo efeito emocional que deixa o espectador “fora de si”, como Platão apresenta no diálogo de Sócrates com o rapsodo Íon, já que a criação da poesia seria um acto irracional em que os deuses interferem.

Contudo, Platão, no Banquete, não se objecta ao belo: apenas o modela à luz da Teoria das Formas; primeiro deveríamos conhecer um corpo belo para que, mais tarde, descobríssemos que todos os corpos são belos por tudo aquilo que têm em comum. Nesta juxtaposição de corpos, à medida que fôssemos adicionando corpos, aproximarmo-nos-íamos da Forma da Corporidade.

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